No rescaldo da viagem da comitiva torrejana a Cabo Verde, decorrida entre os dias 15 e 25 de Janeiro, o Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, António Rodrigues, fez a contextualização da cooperação existente entre este Município e o de Ribeira Grande, bem como o balanço da mais recente deslocação.
Um dos principais objectivos desta viagem foi a entrega formal dos donativos angariados através da campanha de solidariedade realizada no final de 2009, para apoio às vítimas das chuvas torrenciais que assolaram o país em Setembro passado, à qual os torrejanos aderiram de forma notável.
O resultado foram três contentores, num total de 90 toneladas, contendo material escolar, de protecção civil e de construção, livros, brinquedos, vestuário, calçado, entre outros.
Quando e como surgiu este projecto de geminação com a Ribeira Grande, em Cabo Verde?
Este projecto começou no ano de 1996, tendo sido assinado protocolo que vinculou ambos os municípios no ano de Maio de 1997.
Quais os principais objectivos desta cooperação?
Tentar promover acções de apoio ao povo da Ribeira Grande, seja através da autarquia, seja através de instituições ou mesmo pela população torrejana. A vertente de eleição nesta cooperação é a Educação.
Quais as principais acções já desenvolvidas e os apoios prestados?
Apoio frequente aos estabelecimentos de ensino daquele concelho, formação e criação de bombeiros voluntários (os primeiros de Cabo Verde), oferta de antenas parabólicas para a captação de sinal da televisão, em particular da cabo-verdiana e da portuguesa. Foi oferecido, com o apoio da ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses), um carro de combate a incêndios Houve também apoio ao nível dos transportes escolares, com a oferta de dois autocarros. De realçar que estas ofertas só foram possíveis com a comparticipação da população do nosso concelho e também de empresas que aderiram a este processo.
Como descreveria o povo cabo-verdiano e qual a sua receptividade a estas acções?
É um povo afável, amigo de Portugal, culto e interessado. Um povo trabalhador com uma capacidade única de resistir à adversidade. Aliás, Cabo Verde é uma referência mundial na área da boa governação, sendo um exemplo ao nível de África. São muito gratos com este tipo de Cooperação.
Qual o relevo deste tipo de projectos na política autárquica?
Para uma Câmara, como a da Ribeira Grande, cujo orçamento anual ronda o milhão de euros, e que tem largos milhares de crianças a frequentar as suas escolas, percebe-se bem da importância e do impacto destes apoios.
Qual o envolvimento do governo português neste processo?
Nenhum. Pelo menos até agora. Admite-se como forte a probabilidade de vir a apoiar o projecto da CASA, que se pretende construir naquele concelho ainda este ano.
E que projecto é esse da CASA?
Será um Centro de Acolhimento para crianças abandonadas ou órfãs. O Centro de Acolhimento de Santo António (CASA) deverá ter capacidade para 70 crianças de ambos os sexos. Este projecto só será uma realidade se tiver um apoio substancial do governo português.
Enquanto responsável pelo pelouro das Relações Internacionais e das relações com CPLP na Associação Nacional dos Municípios Portugueses, qual pensa que deverá ser o papel desta entidade nesta cooperação?
É muito importante o papel da ANMP, porque poderá contribuir para a economia de escala em apoios mais substantivos junto de municípios da CPLP e terá uma função muito importante ao nível da coordenação. Aliás, isso já hoje acontece no processo de recuperação do Mercado de Baucau em Timor Leste.
Os Encontros da Lusofonia tiveram já duas edições. Quais os principais objectivos deste evento e qual o seu papel no âmbito da cooperação com países que falam a mesma língua?
A promoção e a divulgação da cultura dos diversos países da Lusofonia e, muito em particular, a promoção da nossa língua. A Cooperação é também vertente importante dos Encontros da Lusofonia.
Em conclusão, por onde passa o futuro desta cooperação e que entidades estarão envolvidas?
O futuro da Cooperação passa pela boa vontade e empenho dos Homens e das instituições que representam. No mundo serão sempre mais os pobres que os ricos. E assim será com os países. E nós, por muito estranho que a muitos possa parecer, fazemos parte dos países ricos…
Um dos principais objectivos desta viagem foi a entrega dos donativos resultantes da campanha de solidariedade realizada em Torres Novas no final de 2009. Qual o resultado dessa campanha?
Uma campanha única e imediata pela dimensão das ofertas dos torrejanos. O que desta vez se ofereceu à Ribeira Grande é superior a todas as ofertas dos torrejanos somadas e feitas nos últimos dez anos.
Esperava a adesão demonstrada pelos torrejanos?
Ultrapassou todas as expectativas. Todas! Foram necessários três contentores para que todo o material chegasse à Ribeira Grande.
Sabe porque é que houve esta adesão tão grande?
Por um lado porque esteve em causa o apoio a um concelho que já se conhece bem e que foi atingido por fortes intempéries que destruíram muito naquele concelho. Por outro, porque neste tipo de acções as pessoas acreditam que o seu donativo chega ao destino. E podem mesmo acreditar que chega ao destino. Desta vez, milhares de crianças foram beneficiadas de uma forma directa pelo apoio dos torrejanos e das suas empresas.
Qual a importância que esta oferta tem para a população da Ribeira Grande?
Muita importância. No que se refere às crianças e às escolas, foram oferecidos meios e materiais que de outra forma as crianças dificilmente viriam a ter…
A nível empresarial também se registou uma forte adesão à campanha. Qual poderá ser o papel das empresas, em particular as do concelho, nesta cooperação?
As empresas tiveram um papel muito, mas muito importante neste processo de cooperação. Faço votos para que amanhã, a somar a este tipo de apoio, se possa associar a possibilidade de investirem em Cabo Verde.
Esta viagem ficou de certa forma ensombrada pelo acidente com o transporte de parte dos donativos recolhidos, que vitimou o condutor do camião e o jovem cantor cabo-verdiano Vadu. Que impacto teve este acontecimento no desenrolar da viagem?
Foi muito marcante este drama. Toda a programação foi alterada. Para se ter uma ideia, o infeliz cantor, de grande projecção nacional, foi sepultado no dia em que deveria ter actuado, o Dia do Município. Aliás, também o motorista teve o seu funeral neste domingo.
Com que entidades reuniu e quais as temáticas abordadas?
Autarcas, Director da Educação e deputados. Também reuni com a Ministra do Trabalho e da Solidariedade, mas na Praia.
Um dos objectivos já assumidos é a construção de uma casa de acolhimento para crianças. Foi dado algum passo nesse sentido durante esta viagem?
Foi sem dúvida e pode ser histórico. Finalmente há luz verde do Ministério para se avançar com a obra, que poderá começar ainda este ano no concelho da Ribeira Grande, mais concretamente em Coculi.
Em suma, qual o balanço geral que faz desta deslocação a Cabo Verde?
Apesar do drama que referenciei, esta deslocação foi das mais marcantes de sempre quer pela componente afectiva que se gerou quer pela dimensão e importância das ofertas dos torrejanos.