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02.02.2010 | 
Homenagem ao Dr. Francisco Canais Rocha

«Felizes os homens que são homenageados em vida»

Foi numa cerimónia repleta de emoção, em que o tema «liberdade» esteve sempre em pano de fundo, que foi homenageado o Dr. Francisco Canais Rocha, nas suas vertentes de homem, político, cidadão mas, acima de tudo, de ser humano.

O Teatro Virgínia acolheu o evento, a que se associaram muitos torrejanos, organizado pela FARPIR (Federação das Associações dos Reformados, Pensionistas e Idosos do Ribatejo) e pela ARPE (Associação de Reformados e Pensionistas) de Torres Novas, com o apoio da Câmara Municipal de Torres Novas.

O Dr. António Canelas, Presidente da Associação da FARPIR, foi o primeiro orador a usar da palavra. Destacou os tempos em que «ir para a clandestinidade para lutar era despedirmo-nos de uma vida normal para ir para o desconhecido e até para a morte», bem como a importância de tornar pública e vida «deste destacado torrejano». Nesse âmbito, dirigiu o seu reconhecimento e agradecimento à Câmara Municipal de Torres Novas e ao seu Presidente pelo apoio e disponibilidade demonstrados.

Para o Secretário-geral da CGTP, Dr. Carvalho da Silva, o homenageado é um homem com um extraordinário carácter, marcado pela disponibilidade para a transformação da sociedade. Enquanto político, enalteceu a entrega total de militante do Dr. Francisco Canais Rocha, num tempo muito difícil, que encarou com determinação e confiança. Numa outra vertente, o Dr. Carvalho da Silva destacou que um cidadão pleno é aquele que tem uma intervenção política efectiva, fazendo-o do ponto de vista individual e colectivo, algo que o homenageado preconizou com distinção.

O próprio Dr. Francisco Canais Rocha, após dirigir diversos agradecimentos, confirmou a veracidade da afirmação «Felizes os homens que são homenageados em vida», uma vez que lhes permite saber os que os outros pensam deles e, por outro lado, fazer um balanço do seu trabalho. «Pertenço a uma geração que lutava por um mundo melhor, mais justo, mais solidário. Os valores da liberdade e da solidariedade nortearam toda a minha vida. Defendi sempre a união de todos e hoje é tempo de balanço. Olhando para o caminho percorrido, creio que tal percurso não foi em vão e a prova, se necessária, é esta homenagem», afirmou o Dr. Francisco Canais Rocha.

O Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, Dr. António Rodrigues, iniciou o seu discurso referindo algumas curiosas coincidências, nomeadamente o facto do pai do homenageado ter as suas origens em Cabo Verde, na ilha de Santo Antão, no Município de Ribeira Grande, com o qual Torres Novas tem um importante projecto de geminação. Por outro lado, e aquando de uma visita ao Tarrafal, em Santiago, o Presidente da Câmara afirmou ter-se lembrado do Dr. Canais Rocha, naquele que considera ter sido «um momento emocionante mas também de vergonha, num local que é símbolo da cobardia e do que não deve haver na Humanidade».

«É justo reconhecer no outro a capacidade de enfrentar a adversidade, pela causa da liberdade, do colectivo e, acima de tudo, da democracia. Torres Novas tem homens e mulheres, de várias cores políticas, que estiveram no terreno, sentiram as agruras do sofrimento, da separação, da solidão. E é preciso dizer-lhes ‘obrigado’», destacou António Rodrigues. Ao homenageado dirigiu também os seus agradecimentos: «Obrigado por ter pensado sempre na sua terra. Mas obrigado também porque é um homem bom, simples, humilde, inteligente, porque só os inteligentes são bons, humildes e sensatos. É com redobrado orgulho que a Câmara Municipal de Torres Novas se associa para lhe dizer ‘obrigado’, ‘parabéns’ e ‘muita vida’».

Na cerimónia foram ainda lidas duas cartas. A primeira, do MURPI (Confederação Nacional de Reformados Pensionistas e Idosos em Portugal) descreve o Dr. Francisco Canais Rocha como um «político solidário das causas nobres», homem vertical, digno, de carácter irrepreensível, que pautou a sua vida pela defesa intransigente dos direitos dos idosos, deixando um legado precioso.

A Casa Memorial Gen. Humberto Delgado, nas palavras do Dr. Carlos Trincão Marques, considerou esta uma justa e merecida homenagem a um homem que sempre lutou contra a ditadura e pela liberdade e justiça social.

A fechar o evento, uma actuação do Grupo Coral da ARPE, num dia em que, coincidentemente, se assinalaram 119 anos sobre a Revolta de 31 de Janeiro de 1891, o primeiro movimento revolucionário que teve por objectivo a implantação do regime republicano em Portugal. A revolta de 31 de Janeiro veio a assumir um papel de grande relevo na história da conquista do poder republicano, que culminou com a revolução de 5 de Outubro de 1910, que este ano comemora o seu centenário.


Sobre o Dr. Francisco Canais Rocha:

Nasceu em Torres Novas, em 17 de Janeiro de 1930. Começou a trabalhar após a instrução primária como marceneiro, na empresa de Alberto Sepodes, e carpinteiro de moldes, nas metalúrgicas Lourenço & Irmão e Costa Nery. Mais tarde faria o curso do liceu, a licenciatura em História e o Mestrado de História Contemporânea.

Desde muito novo ligou-se aos movimentos sociais, políticos e associativos de Torres Novas. Em 1952 foi preso pela primeira vez pela polícia política e, depois de libertado, retoma a luta política e sindical em Torres Novas.

Funda as estruturas sindicais dos trabalhadores metalúrgicos, concelhias e distritais, integra direcções locais e regionais do PCP e adere às comissões de apoio às candidaturas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado.

Ao nível associativo, esteve na fundação do Núcleo Campista “Raiar da Aurora” e do Cineclube de Torres Novas.

Em 1961 integrou a delegação dos trabalhadores portugueses ao V Congresso da Federação Sindical Mundial, realizado em  Moscovo. Em 1968 foi de novo preso pela PIDE, tendo sido condenado a 5 anos de prisão. Liberto da cadeia de Peniche em 1973, emprega-se no Sindicato dos Jornalistas e no Sindicato dos Electricistas e integra o grupo fundador da Intersindical, de que foi o primeiro coordenador-geral. Em Maio de 1974 é eleito delegado dos trabalhadores portugueses à 59ª Conferência Internacional do Trabalho (OTI), realizada em Genebra.

Foi fundador e dirigente da Associação Amigos de Torres Novas em Lisboa; em 1996 funda a ARPE, de que foi presidente. Em 1998, funda a Federação dos Reformados do Ribatejo, de que é presidente e, em 2002, a União das Colectividades e Associações de Torres Novas, de que também é presidente. Participou ainda na fundação da AGIR e da Associação Casa Memorial Humberto Delgado.

Recebeu a Medalha de Mérito Cultural do Município de Torres Novas em 2003

Publicou dezenas de artigos sobre a história do movimento operário e sindical e sobre história local, em vários jornais e revistas, e alguns livros sobre o sindicalismo e a história do movimento operário, o último dos quais editado pelo Município de Torres Novas em 2009.

 


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